20 fevereiro 2018

[Resenha] Restos do Carnaval

Olá!!!

Vamos clariçar?

O conto do mês pelo Projeto Clarice-se é Restos do Carnaval. E hoje é sobre ele que vou falar.




Como sempre é uma delícia ler um texto de Clarice Lispector e o desse mês considerei bastante intenso e forte. Terminei com a sensação de uma Clarice diante de uma lembrança tão íntima.

No conto Restos do Carnaval nos deparamos com recordações da autora em seu tempo de infância, mas precisamente à época de carnaval.

"... sinto que ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz."

Clarice relembra as ruas do Recife em quarta-feira de cinza, tão mortas, em um pós carnaval e,  assim, pensa na espera de todo ano para o ano seguinte. 

A menina, apesar de nunca participar das festividades, as tinha tão intimamente como suas, que as vivia intensamente dentro de si.  A alegria, o divertimento e as máscaras a encantavam e o quase nada de tudo aquilo a fazia se sentir feliz.

"E as máscaras? Eu tinha medo, mas  era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara."

Porém, em um carnaval em especial, sua mãe encontrava-se acamada e todos na casa estavam voltados para sua saúde. E nesse ano Clarice recebe da mãe de uma coleguinha uma fantasia de rosa, feita de papel crepom. Era seu deleite!

Nesse momento entramos em contato com sentimentos muito intensos da menina Clarice, o conflito vivido entre a folia, a alegria e, principalmente, a festa dentro de si mesma e pelo outro lado, o drama familiar, o agravamento do estado de saúde de sua mãe.

Toda a dor sentida pela autora, já adulta, demonstra o grande contraste da situação vivida naquele carnaval.

"Muitas coisas que me aconteceram tão piores que estas, eu já perdoei. No entanto essa não posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso."

Mais uma vez Clarice nos presenteia com um texto intenso, carregado de uma grande carga emocional. A autora expõe fatos de sua infância, as dificuldades vividas, os dramas familiares e, ao mesmo tempo, a necessidade da felicidade. 

Encontramos no texto, também, traços da feminilidade, o rito de uma menina para o desabrochar de uma mulher, simbolicamente retratada no fantasiar-se e no pintar-se. Ela se sente outra pessoa, mesmo ainda sendo a mesma.

Ler Clarice sempre é uma experiência única e, sem sombra de dúvida, a autora provoca e desafia o leitor e, acaba nos colocando em contato com nosso próprio eu.


Restos do Carnaval está incluído na obra Felicidade Clandestina, de 1971. E o conto completo encontra-se aqui.


Espero que tenham gostado e não deixem de comentar!

Beijos!





5 comentários:

  1. Clarice Lispector é maravilhosa! O primeiro contato que tive com ela foi na época do vestibular, quando tive que ler " A hora da estrela". Admito que não foi uma leitura que eu tenha gostado. Mas relendo tempos depois entendi a intensidade do texto da Clarice e a forma ao mesmo tempo delicada e forte que ela tem de expressar sentimentos. Não são livros fáceis de ler, mas vale muito a pena.

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  2. Eu sou suspeita, porque adoro os textos de Clarice, cada texto dela é um presente para nós. Amei sua resenha ❤️

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  3. Li o título do post e logo minha mente viajou. Há uns anos eu tinha um livro, daqueles didáticos de escola, e ele tinha muito conteúdo de português e textos. Eu AMAVA folheá-lo durante as tardes, e foi um dos primeiros ~objetos~ de leitura que eu tive. Num dos primeiros capítulos tinha esse texto da Clarice, e ele sempre me encantou ♡ ai, que nostalgia!

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  4. Oi Fê
    Confesso que Clarice está sempre na minha lista, mas li muito pouco até hoje.
    Achei este projeto muito bacana!
    Adorei o conto e o post também.
    Bjs

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