[Resenha] O Filho de Mil Homens

O FILHO DE MIL HOMENS

Autor: Valter Hugo Mãe | Ano: 2012 | Páginas: 208
Editora: Cosac Naify | Skoob



Esta foi a primeira obra que li do Valter Hugo Mãe. Com um tom poético, e por vezes com certa musicalidade, o texto flui de tal forma que encanta e agrada sobremaneira. 

É uma história de superação diante de modelos primitivos de comportamento; não condenando, aqui, algo por ser antigo, mas abrindo novas possibilidades para o amor e a felicidade.


Não adianta sonhar com o que é feito apenas de fantasia e querer aspirar ao impossível. A felicidade é a aceitação do que se é e se pode ser.  

Numa vila não determinada corre a vida de vários personagens que, tranquilamente, poderiam compor grupos sociais reais. Destes personagens emergem diversos sentimentos, fruto do comportamento convencional, geradores de sofrimentos e infelicidade. 



Crisóstomo, agora que chegou aos quarenta anos, vê com melancolia o fato de estar sozinho. Não é pai, não tem esposa, não vive para ninguém e não tem alguém que viva para ele. 

Ele vê em si a culpa disso! Mas também a solução. Toma por objetivo encontrar um filho, já que existe tanta criança em busca de um pai. 

Camilo é um garoto órfão, de um coração sem tamanho e que não compreende tantas coisas que acontecem na vida. Enxerga, mesmo assim, a discrepância entre o que ouve e o que vê, sentindo dificuldade em entender o mundo ao seu redor. 

Também tem a Isaura, que foi iludida e desonrada. Ela achou que deveria ceder a tudo para alcançar o amor. 

Disse: estou sozinha. E repetiu: estou sozinha. Desatou a falar como se não suportasse mais a boca fechada. Era uma mulher carregada de ausências e silêncios. Para dentro da Isaura era um sem fim e pouco do que continha lhe servia para a felicidade. Para dentro da Isaura a Isaura caía. 




Vários outros personagens interagem em busca da aceitação. Tentam se adaptar para serem aceitos, sufocando seus desejos. Eles vão descobrir uma felicidade mais pura e verdadeira, condizente à condição de cada um. 

O enlace dos marginalizados possibilita a superação das diferenças, com o sofrimento, sentimento comum a todos, sendo o agregador dessas almas ávidas por carinho, por afeto. 

Mãe nos aponta um caminho mais suave, que qualquer pessoa pode trilhar. Um amor desprendido e mais próximo do que é divino. É uma lição de felicidade. 

Sabes, pai, gosto de pensar que nunca mais vou ficar sozinho e que alguém há de ficar comigo para sempre sem me abandonar. 
O Crisóstomo disse ao Camilo: todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se os nossos mil pais e mais as nossas mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós. 



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