07 agosto 2018

[Resenha] Ensaio Sobre a Cegueira

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

Autor: José Saramago | Ano: 1995 | Páginas: 312
Editora: Companhia das Letras | Adicione ao Skoob




Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago mais que uma obra magnífica, é um convite à reflexão! 

A história inicia-se em um dia normal, onde um homem à caminho do trabalho, espera o sinal fica verde. Sem qualquer aviso, é acometido por uma cegueira, uma nuvem branca cobre toda sua visão. O Primeiro Cego.

Confuso e apavorado, o Primeiro Cego vai à procura de um  oftalmologista que encontrasse o motivo de sua cegueira. O fato é que é algo muito estranho, já que os olhos estão em perfeito estado. Diante disso, o Doutor tenta investigar as possíveis causas e é acometido pela mesma cegueira.

"Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem."

É ai que começa toda tensão e profundidade do livro, pois a cegueira coletiva começa a se alastrar e a ficar sem controle. O pânico toma conta de todos e para não ganhar maiores proporções e a sociedade entrar em colapso, o Governo decide colocar os cegos em quarentena. Todos são enviados para um manicômio abandonado e isolado.



No entanto há uma única pessoa que não foi acometida pelo mal, a Mulher do Doutor, que para acompanhar o marido, não revela que enxerga perfeitamente e assim segue para a quarentena, sem saber o inferno que os espera.

Ensaio Sobre a Cegueira é um livro forte que retrata o homem em sua pior essência. Quando ninguém pode ver o que você faz, quando existe a penúria, os instintos se afloram, não há regras, moral ou ética, é a degradação do ser humano.

"Cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança".

Saramago usa uma escrita direta e pode chocar, não há sentimentalismo algum, a abordagem dos fatos é nua e crua, e é inevitável para o leitor sair da leitura sem ser tocado, sem pensar como reagiria em uma situação limite.



É cruel ver os cegos se digladiando por comida, o bom senso deixa de existir, é a lei do mais forte. E não foi só isso, muitas coisas ocorrem e tem partes bastante avassaladoras, que eu precisei de um tempo para prosseguir. 

"De uma certa maneira, tudo quanto comemos é roubado à boca de outros, e se lhes roubamos de mais acabamos por causar-lhes a morte, no fundo todos somos mais ou menos assassinos."

Saramago nos passa de forma clara sua opinião e crítica sobre uma sociedade egoísta e hipócrita, nos mostrando a miséria humana e sua crueldade. O escritor faz uma verdadeira dissecação da alma humana.

Outro ponto que quero dar destaque é como os personagens são descritos, eles não possuem nomes, são apresentados por determinada característica física, comportamental ou profissional. Achei que esse detalhe deu um valor maior ainda para a obra, pois deixa claro a igualdade e nada mais. Eles eram "mais um cego" entre milhões.



A obra nos leva a reflexão, sobre o que somos, sobre a sociedade em que vivemos e sobre o mundo que criamos. O homem se mostra incapaz de lidar com situações conflitantes.

"Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos façamos tudo para não viver inteiramente como animais, tantas vezes o repetiu, em sentença, em doutrina, em regra de vida, aquelas palavras, no fundo simples e elementares."

Entretanto, diante desse quadro angustiante dos cegos, temos a figura da Mulher do Doutor, que tenta ajudar e orientar. Mesmo passando por várias situações constrangedoras, é determinada e uma personagem inspiradora. Há uma esperança?

Ensaio Sobre a Cegueira não é uma leitura fácil, não somente pelo tema, mas também pelas pontuações livres, pela falta de separação entre uma fala e outra e pela linguagem, por isso é preciso não ter pressa para melhor compreensão da obra. 

É uma história que nos faz sofrer diante de um mundo decadente onde parece não haver saída, a não ser a adaptação. Um livro que traz muitos questionamentos e reflexões.

Essa foi minha segunda experiência com Saramago e eu apreciei muito. Uma leitura muito válida!!



5 comentários:

  1. Sabe que já tentei ler varias vezes e não consigo. Até que assisti ao filme e também me deixou bem inquieta. Mas agora lendo seu post me deu vontade de tentar ler de novo...

    ResponderExcluir
  2. Oie, eu nunca li nada de Saramago... é até uma vergonha... Eu achei super forte essa história. Eu sempre ouvi falar desse livro, mas eu achava que era algo mais calmo... não sabia que era forte assim...
    Bjks!
    http://mundinhodahanna.blogspot.com

    ResponderExcluir
  3. Olá,
    Nossa está parece ser bem complexa e de um contexto bem forte, são livros assim que nos levam ao nosso profundo e nos provocam questionamentos. Adorei conhecer ��

    ResponderExcluir
  4. Gosto do estilo de Saramago, mas não é um livro-leitura que me traga de volta. Li uma vez e pronto. As histórias são fortes, essa em especial, há passagens inteiras em que é preciso parar, respirar e tentar não observar certos atos humanos para voltar a leitura.
    Ele foi feliz em retratar o nosso pior, aliás, como Dostoiévski também o foi. Que bom que existiram autores que são capazes de nos retirar da zona de conforto e nos expor.

    bacio

    ResponderExcluir
  5. Oi Fê
    Não li ainda, mas o filme me deixou bem aflita.
    LI mês passado Intermitências da Morte e gostei, mas detesto a diagramação dos livros dele...meu cérebro se recusa a entender bem....rs
    Ficou lindo seu post, amei as fotos
    Bjks mil

    ResponderExcluir

Não saia sem deixar um recadinho pra nós!

© Conduta Literária ♥ 2017 - Todos os direitos reservados ♥ Criado por: Taty Salazar || Tecnologia do Blogger. imagem-logo