16 junho 2018

[Resenha] Manuelzão e Miguilim

MANUELZÃO E MIGUILIM

Autor: João Guimarães Rosa | Ano: 1984 | Páginas: 258
Editora: Nova Fronteira | Adicione ao Skoob




As histórias desses dois personagens compõem um dos livros mais conhecidos de Guimarães Rosa; novelas, como o próprio autor as classifica, originalmente publicadas com outras mais em Corpo de Baile. Posteriormente, Guimarães Rosa distribuiu as sete novelas em três livros; formato esse utilizado até hoje.

Apesar da ordem dos nomes, a primeira história contada é a de Miguilim, sob o nome de Campo Geral; a de Manuelzão é Uma Estória de Amor. Percebemos claramente que elas se completam, através das visões sobre a vida na ótica de um garoto inocente e depois na de um velho.



Campo GeralMiguilim é um garoto que vive numa área muito isolada do sertão mineiro, mais precisamente no Mutum, onde as montanhas impedem que os moradores tenham uma visão do que há adiante, os mantendo segregados das demais localidades.

Logo de início esse isolamento é superficialmente quebrado, quando o garoto Miguilim é levado pelo tio Terêz para ser crismado. Aos oito anos de idade, ele sai pela primeira vez daquela terra que sua mãe acha tão hostil e feia. Tamanha é a felicidade de Miguilim por estar passeando com aquele tio por quem tinha apreço, e, mais ainda, quando certa pessoa lhe fala da beleza do Mutum.

Seu coração se enche de alegria e ele não vê a hora de encontrar a mãe e dizer que as pessoas não acham aquela terra um lugar ruim. Seu pedaço de chão é lindo, mas ao ir direto falar com a mãe, Nhanina, ignorando o pai, Nhô Béro, este lhe aplica uma surra.

Essa é a introdução da natureza da relação de pai e filho. Nhô Béro era agressivo com os filhos, especialmente com Miguilim, que não entendia a falta de amor do pai, mesmo com ele tentando sempre ser útil e agradável aos seus olhos.

Isso foi criando um ódio no garoto, que desejou até matar o pai. Mas não era só isso que atormentava Miguilim; o distanciamento da mãe também o assolava: seus olhos estavam sempre voltados para outros assuntos que não a casa, os filhos e o marido.

Tio Terêz acaba sendo expulso da casa por um comportamento inadequado, trazendo mais tristeza àquela terra e à Miguilim. Mas tem o Dito, um irmão mais novo seu, um grande amigo.

O Dito sabe de coisas que nem os adultos compreendem, e fala delas sem nunca ter ouvido. Seu comportamento é sempre amável, suave; e isso desperta muita admiração em Miguilim: o Dito tem sempre resposta para tudo.

A história segue narrando as dificuldades da terra e das relações humanas, destacando as falhas no caráter de cada um, raiz das desgraças futuras.

As privações e o sofrimento daquele povo são sempre realçados pelo autor, numa linguagem muito própria, às vezes de difícil compreensão, mas muito bela e poética, até o amadurecimento de Miguilim pela luz da realidade que ele passa a enxergar.

Mergulhamos na simplicidade e na inocência de Miguilim; sua dor do desamor invade nossa mente, e vem o desejo de lhe acolher nos braços, afagá-lo, diante dos sofrimentos e aflições.

É com grande singeleza que o autor retrata a aridez daquele núcleo familiar, numa comovente história que pode ser a de muitas pessoas. Ele captura a alma de uma criança que duramente é submetida à realidade áspera.



Uma Estória de AmorManuelzão é um velho sertanejo, que já cansado da lida com boiadas, manda construir uma pequenina capela em homenagem e a pedido de sua mãe. Ele passa a refletir sobre sua vida, as decisões que tomou e o que deixou de fazer, isso tudo durante os preparativos e o acontecimento da festa de inauguração.

Manuelzão sente o peso da idade, e já não tem mais a certeza se conseguirá realizar mais um traslado de boiada. Lamenta não ter se casado e amado de verdade uma mulher, mas enxerga na esposa do filho – fruto de um breve caso amoroso – o ideal feminino para se ter ao lado. 

Em oposição a esse afeto pela nora, encontra-se desapreço pelo filho. Manuelzão critica seus valores, sua disposição, e descreve que esse está fadado à maldade e ao desleixo.

Transparece na narrativa a necessidade de Manuelzão por reconhecimento, mas ao mesmo tempo a tristeza por ser tão sozinho. É muito presente certa agonia mental, um sofrimento pela incapacidade de ser feliz, sendo diferente.

Também é figura certa o tal contador de histórias, num misto de lenda e de ensinamento. Os casos são sempre de grande importância nesses encontros sociais do povo do sertão; uma tradição com forte valor cultural na identidade interiorana que Guimarães Rosa insere sempre nessas novelas.

E é o último caso contado na festa que dá novo vigor à Manuelzão e lhe faz alterar uma decisão.



Das duas histórias confesso que gostei mais da de Miguilim. Ela tem uma complexidade maior, é mais à flor da pele; com uma capacidade de emocionar mais profundamente, pela própria inocência do personagem. Mas é claro que se completam, tendo em vista que o próprio Miguilim poderá cometer os mesmos erros de Manuelzão, ao ser forçado a crescer e encarar a vida sem o véu da ilusão ou dos sonhos, que foram desfeitos.

A linguagem de Guimarães Rosa realmente não é fácil, acredito que ele até exagera na caracterização como sendo a fala daquele recôndito sertanejo, que mora no interior do interior, para assim dar uma personalidade única à obra. E por isso há que se ler com bastante calma e atenção, pois existe muita informação a ser garimpada nesse universo do sertão.

Não dá nem para imaginar o quanto possa ter sido trabalhoso escrever tais obras, tendo em vista que Guimarães Rosa era um homem culto, um erudito. Ele teve que escrever de uma forma rudimentar, muito própria de locais isolados e da língua falada, não escrita.

Mas digo que esses desafios valem a pena, porque ampliam nosso horizonte e estendem nossa percepção e o entendimento de outras realidades e outros tempos.



4 comentários:

  1. Muito bom... Gostei. :))

    Hoje: - Adormecer na dor das palavras.

    Bjos
    Votos de uma óptima Quarta-Feira.

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  2. eu nunca li um livro com uma tematica assim e isso me chamou a atenção
    boa dica de leitura beijos otima resenha

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  3. Oi Junior
    Quando comecei a ler seu post, a primeira coisa que pensei foi no trabalho que Guimarães Rosa teve para escrever este livro!Por aí já dá pra ver seu talento
    Adorei o post e a dica
    Não li ainda, mas fiquei bem curiosa para ler também
    Ja vai pra lista (infindável...rsrs)
    Bjs

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  4. Que resenha, simplesmente maravilhosa 👏👏👏👏.

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