26 março 2018

[Resenha] O Príncipe - Maquiavel

O PRÍNCIPE - MAQUIAVEL
Autor: Nicolau Maquiavel | Ano: 1998 | Páginas: 176
Editora: L&PM Pocket | Adicionar ao Skoob


Na obra de Nicolau Maquiavel, temos a clara percepção de que muitas ações e posturas de governo continuam como práticas comuns, com maior ou menor intensidade, nos tempos modernos, assim como à época dos anos de 1500, quando o autor a escreveu para presentear o governante italiano Lourenço de Médici.

Nicolau inicia dizendo que um súdito deve presentear o príncipe com que possua de mais precioso, e, no seu caso, o que ele possui de mais caro é seu conhecimento e experiência na arte da política. E por isso oferece, humildemente, aquele compêndio ao seu soberano, com vistas a auxiliá-lo numa unificação da Itália, dispondo metodicamente todo um conjunto de estratégias e ações que podem ser eficazes para se perpetuar no poder e combater os opositores de seu governo.


A obra causa muita controversa no que tange a maneira de se atuar na política, no entanto é no mínimo um mecanismo de alerta, de expansão de nossa visão, para tudo aquilo que cerca as figuras do poder de uma nação. A cada capítulo podemos encontrar alguma semelhança com tudo que presenciamos em nosso dia a dia, ao buscar informações sobre o que acontece nos bastidores do poder.

“Daí nasce uma controvérsia, qual seja: se é melhor ser amado ou temido. Pode-se responder que todos gostariam de ser ambas as coisas; porém, como é difícil conciliá-las, é bem mais seguro ser temido que amado, caso venha a faltar uma das duas. Porque, de modo geral, pode-se dizer que os homens são ingratos, volúveis, fingidos e dissimulados, avessos ao perigo, ávidos de ganhos; assim, enquanto o príncipe agir com benevolência, eles se doarão inteiros, lhe oferecerão o próprio sangue, os bens, a vida e os filhos, mas só nos períodos de bonança, como se disse mais acima; entretanto, quando surgirem as dificuldades, eles passarão à revolta, e o príncipe que confiar inteiramente na palavra deles se arruinará ao ver-se despreparado para os reveses.”

O autor discorre sobre as virtudes necessárias àquele que ascende ao poder, como mantê-lo e de quem deve estar ao seu lado na construção de um governo forte e sólido. Se este deve ser temido ou amado por seu povo e o caminho para se obter êxito na composição do poder. Tudo isso exemplificado por cenários que ilustram e certificam sua teria de modus operandi, mostrando o sucesso dos que seguiram tal postura e o fracasso dos que a negligenciaram.

Não há medida nos esforços da doutrina de Maquiavel, denotando a máxima de que tudo vale pelo poder: confrontos, subjugar, massacrar, mentir, dissimular. Tudo faz parte desse jogo político para alcançar e manter-se no poder. Existe alguma semelhança com os dias de hoje? 

“... os homens têm menos escrúpulos em ofender alguém que se faça amar a outro que se faça temer: porque o amor é mantido por um vínculo de reconhecimento, mas, como os homens são maus, se aproveitam da primeira ocasião para rompê-lo em benefício próprio, ao passo que o temor é mantido pelo medo da punição, o qual não esmorece nunca.” 



Posso dizer, então, que Maquiavel foi um exímio observador da natureza humana, e reuniu, em O Príncipe, uma série desses atributos, na prática, que revelam o que há de pior em nossa espécie, mas que a hipocrisia nos permite enxergar mais nos outros que em nós mesmos.

“Todos concordam quanto é louvável que um príncipe mantenha sua palavra e viva com integridade, não com astúcia; todavia, em nossa época vê-se por experiência que os príncipes que realizaram grandes feitos deram pouca importância à palavra empenhada e souberam envolver com astúcia as mentes dos homens, superando por fim aqueles que se alicerçaram na sinceridade.”

É perturbador perceber que muito pouco mudou desde então (guardada as devidas proporções das épocas) na capacidade de empatia daquele que têm o poder de decidir. Os atributos descritos por Maquiavel são observados nas mais variadas esferas da sociedade. Barganhas, negociatas, imposições, tudo que for necessário para se obter o benefício próprio, que não serve a coletividade.

Vale um exame pessoal, após esta leitura, para buscarmos uma sociedade moralmente mais equilibrada, seja cobrando o certo de quem governa de maneira egoísta; seja nutrindo, em nós mesmos, um sentimento de maior honestidade para cada pequena oportunidade de exercitar uma consciência fraterna, subvertendo a primitiva natureza humana.

Recomendo, principalmente para aqueles que gostam de sair de sua zona de conforto.


5 comentários:

  1. Sempre ouço falar desse livro e do autor, mas nunca tive a oportunidade de lê-lo. Gostei da sua resenha, o que me fez ter vontade de ler o livro e procurar saber mais sobre o mesmo, afinal nunca li algo do tipo e talvez seja legal ler algo diferente!

    Beijos
    Inverno de 1996

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  2. Oie!
    Lembro que li O Príncipe há um tempo, quando estava cursando a faculdade, e também concordo que é uma leitura necessária. É um instrumento muito bom para estudo da história e compreensão da situação atual.
    Os posicionamentos que são defendidos no livro são, como você bem apontou, ótimos para entendimento da política e das traquinagens do poder, que, a maior parte dos reles mortais não compreende e às vezes não consegue ver a ligação e contextualização das decisões tomadas.
    Ótima indicação!
    xoxo

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  3. Não consegui ler esse livro...tentei ler uma vez por mim mesma e a outra obrigada pela professora para fazer um trabalho. Lendo a sua resenha, parece até ser uma leitura fácil e agradável rs. Parabéns pela resenha!!

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  4. Nossa, li esse livro no segundo ciclo do colégio. Faz tempo. Fui rememorando aqui o meu estranhamento quando aparece personagem e suas reações. Nossa. Parece que foi em outra vida. Nota mental. Ler novamente.

    Grazie pela viagem literária.
    Engraçado que acabei por re-ler a maioria dos livros lidos na juventude, mas esse me escapou. Vai entender
    Bacio

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  5. Oi Jr!
    Muito interessante seu post!
    Não li O Príncipe, mas fiquei com vontade de ler, depois desta sua resenha.
    Estranho e perturbador constatar como este tema é atual, ne?
    Vai pra lista
    Bjs

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